Calor, aperto, hostilidade e status

25 out

“Compro, logo existo”
(Colin Campbell: Cultura, Consumo e Identidade)

 

Na minha última viagem a São Paulo a curiosidade meio jornalística, meio acadêmica falou mais alto. Quando me dei conta, estava naquele shopping da região central da cidade, famoso por seus produtos “paralelos” (ou “réplicas”) e “originais sem nota”. É assim que comerciantes e frequentadores chamam os bens falsificados e contrabandeados.

Se sofrer de claustrofobia, não entre. São quatro andares, centenas de estandes e um formigueiro humano carregado de sacolas. Eletrônicos, óculos, relógios, perfumes e bolsas. Muitas bolsas. As campeãs são Louis Vuitton, Victor Hugo, Prada, Chanel e – surpreendemente – Carmim. Entre as mochilas, Diesel, Oakley e em menor escala Kipling.

Reebok está em baixa e Adidas não vale mais a pena – no outlet da Teodoro Sampaio, com sorte, se compra a original por 70 ou 80 reais. Puma e Nike andaram “pegando pesado” na fiscalização e o pessoal resolveu “dar um tempo”. Foi o que me contou uma brasileira que trabalha por lá. Nativos são poucos. “Não confiam em nós, preferem manter as coisas entre eles”, disse. Eles, no caso, chineses e coreanos, em sua imensa maioria.

Se já falam um português monossilábico ou confuso, ao primeiro sinal de barganha ou pergunta mais comprometedora, avisam logo que “português não” e “só dinheiro”. Conversam entre si no próprio idioma, inclusive na nossa frente. Ou seja, podem estar falando qualquer coisa, o que é uma situação bem constrangedora. Às vezes anotam o preço num pedaço de papel ou digitam na calculadora. Estão sempre atentos a câmeras fotográficas e quando fazemos muitas perguntas logo questionam se somos jornalistas. Desconfiança no ar.

Assim como as bolsas, os óculos também seguem uma hierarquia. Expostos quase no corredor as cópias – ou “paralelos” ou “segundas linhas”, como preferem chamar – de Ray Ban Wayfarer das cores mais variadas, por 20 a 25 reais. Protegidos em vitrines réplicas de Ray Ban Aviator, Dior, Chanel, D&G e Cavalli, além de modelos esportivos Oakley. Os perfumes variam mais, geralmente são mais visados os “testers” (aqueles frascos de amostra das lojas) e ninguém se importa com a falta de embalagem.

Na esquina, guardas municipais são presença constante. Mas eles estão ali apenas para manter a ordem urbana, agindo em brigas e tumultos, por exemplo. Não é inoperância, apenas não é da competência deles a fiscalização da legalidade do comércio. Isso fica a cargo da Polícia Federal, que vez por outra aparece por lá e sai com caminhões abarrotados de mercadoria apreendida. Ações como essa costumam acontecer no fim do ano, quando o movimento aumenta por causa do Natal, reveillon e férias.

Logo depois eles voltam ao mesmo comércio. A prática é ilegal, mas as penas são brandas, de 1 a 4 anos de prisão para o crime de contrabando. Como as fiscalizações são poucas e o lucro alto, consideram que o risco vale a pena. É o que me contou outro brasileiro, antes de perceber o olhar recriminador do colega. Estava falando demais. Nem tanto, pois isso não é nenhuma novidade, né? O lugar está sempre cheio de gente em busca do preço mais barato, sem imposto. Mesmo quem já caiu no golpe do iPod recheado de papelão acaba voltando.

Certamente o lucro é alto. Para falar apenas das bolsas, há produtos “paralelos” para todo tipo de poder aquisitivo. As mais baratas “gritam” que são falsas, mas existem outras, bem mais caras, com acabamentos relativamente bons, tanto em costura quanto em ferragens (que é o que mais denuncia bolsas falsificadas, ao oxidar e manchar o couro ou lona), forros e materiais que enganam e até data codes. Vi “réplicas” de Victor Hugo a 300 reais, preço de uma boa peça de couro legítima de uma marca nacional menos famosa. Mas, ah, o brilho do logo… Quem disse que o consumo se dá por necessidade, né?

Todos os dias, multidões enfrentam calor, aperto e hostilidade em troca do poder simbólico de portar uma Louis Vuitton, ainda que não seja autêntica. Incrível o semblante de vitória ao sair do shopping com o “prêmio” em mãos, dentro de sacos de plástico opaco. Embora a mídia estigmatize como consumo popular, não são apenas pessoas de pouco poder aquisitivo que recorrem a essa prática. Cheguei a ver duas irmãs que frequentam os melhores salões de beleza da minha cidade, sempre bem vestidas, com celulares caros nas mãos e Honda Civic no estacionamento. E várias outras parecidas com elas. Fora as que compram de terceiros e de sites que se multiplicam.

Cada vez mais semelhantes ao produto original, as réplicas ganham o status de legítimas, de acordo com quem as usa. Afinal quem desconfiaria dessas moças no salão tão badalado? Mesmo que o monograma seja um pouco mais amarelo ou alça pareça um pouco torta, contextualizado ainda será um marcador social. Muito diferente da moça que porta a mesma bolsa no ônibus, com calça jeans de confecção local e unha descascada de trabalhadora.

A dona legitima a bolsa que legitima a dona.

Ou seja, na experiência de consumo o sistema simbólico se torna cada vez mais importante do que o bem em si.

2 Respostas to “Calor, aperto, hostilidade e status”

  1. Ju Keesse outubro 27, 2010 às 7:11 pm #

    Amei seu post… inteligente, detalhado. É isso mesmo, tomara que convença alguns (algumas) de que não vale a pena o pacto com a máfia dos genéricos. Parabéns.

  2. Annina Barbosa outubro 27, 2010 às 7:39 pm #

    PQP, que texto bom!
    Desculpa a força (ou falta de educação) da expressão, mas é que fiquei chocada com o fato de não conhecer esse blog.

    Argumentação interessantíssima.
    Duas frases já se apresentam como ícones: “Quem disse que o consumo se dá por necessidade, né?” e “A dona legitima a bolsa que legitima a dona.”

    Parabéns e beijos!

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