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Corpo indócil

23 jul

Uma das fotos da campanha de inverno da Givenchy é essa aí do lado. A grife francesa contratou nove modelos, entre homens e mulheres, a maioria deles propositalmente bastante andróginos. Um deles é Lea T, que se destaca na foto de ombro desnudo e batom vermelho escuro. É também a única de salto. Isso é importante.

Lea é assistente pessoal de Riccardo Tisci, estilista da marca, que costuma trabalhar com essa relação anti-dicotômica entre masculino e feminino. Apesar da estreita convivência com o mundo da moda, estudava veterinária e aceitou o convite para estrelar a campanha por amizade. A recém-descoberta modelo também desfilou alta-costura para a Givenchy.

Depois disso, foi destaque na Vanity Fair italiana e considerada uma das apostas do momento pela Vogue francesa. Um perfil bem escrito com uma foto corajosa, que tenho minhas dúvidas que a Vogue americana ou a brasileira publicassem. Lea está nua e omite/revela que a nova estrela da agência Women nasceu Leandro.

Quando elogiei a foto em público, vi muitos narizes torcidos. Nos sites que permitem comentários, várias reclamações (sem falar nos religiosos ofendidos de plantão). “A foto é feia”, diziam, ou “só pra chocar”. Evidentemente que o retrato na Vogue não tem a intenção de ser belo nos padrões clássicos pré-estabelecidos. A riqueza está na construção da foto, em que o significado (conteúdo) se sobressai sobre o significante (forma). Num mundo de aparências, Lea aparece exatamente como é: nua, sem maquiagem, cabelos longos, seios femininos e um órgão masculino que tenta esconder (certamente incomoda muito mais a ela do que a você, pudico leitor).

Por que será que incomoda tanto? Talvez porque o corpo seja uma das formas mais efetivas de controle. Foucault falava dos “corpos dóceis”, voltados à disciplina, submissos, controlados. O corpo de Lea T é transgressor. Ao abrigar em si o masculino e o feminino, constrói uma subjetividade que foge dos papéis impostos pelo e ao “sexo biológico” e rompe com normas de comportamento e estética.

O que faz uma mulher? Em entrevistas, Lea conta que fará cirurgia para mudar de sexo e adequar seu corpo a sua psiqué. Como já disse em outro post, o corpo visto como uma dádiva divina e intocável não existe mais. Hoje o corpo é um projeto humano, o que permite até mesmo a mudança de sexo. Sem falar que a questão reascende velhos debates: alma x corpo x razão x natureza. Ainda que inconscientemente, mexer em idéias cristalizadas assusta.

Parabéns a Carine Roitfeld, pela ousadia e por acreditar, além do discurso batido, que, sim, a moda também tem a ver com mentalidades.

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As roupas do rei

2 jul

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Segundo a People, Dennis Tompkins estava criando, junto com o rei do pop, o figurino para os shows de Londres. A idéia era trazer alguns modelos icônicos da carreira de Michael para o século 21: a jaqueta de Thriller ganharia fibras óticas que se iluminariam. Já as meias, luvas e casacos brilhantes seriam adornados por mais de 300 cristais Swarovski. Ricardo Tisci chegou a comentar que faria parte dos figurinos para o show. A Givenchy era uma das grifes que tinham sido adotadas pelo astro recentemente. Pena que não veremos a concretização desses planos.

Michael, o estilo de uma década e da temporada

26 jun

No início dos anos 80, a música não era só mais um prazer da audição. A música era agora também visual. Após as primeiras (e pontuais) experiências de Richard Lester com os Beatles, o videoclipe se consolidava e deixava de ser um registro de uma apresentação e se tornava um produto novo, com linguagem específica. Surgia uma indústria poderosa que teria seu maior apoio na MTV, que dava seus primeiros passos. O videoclipe de estréia da emissora, em 1981, foi o apropriado para a ocasião “Video Killed the Radio Star”, da banda The Buggles. Mas certamente o campeão de execução foi Thriller (by John Landis) — o mais caro, o mais inovador, o pioneiro em apresentar uma narrativa, etc.

Mais do que nunca a imagem era importante para vender o produto música. E Michael Jackson foi o rosto dessa indústria, junto com Madonna. Outros artistas negros já tinham feito sucesso (o próprio Jackson 5, do qual fazia parte no casting da Motown), mas nada que se comparasse ao fenômeno dos seus mais de 100 milhões de cópias vendidas com Thriller, até hoje. Deram-lhe um título — merecido, vale ressaltar — de  “Rei do Pop”, e sua indumentária tinha que fazer jus a ele. Era jovem, como ele e seu público, mas com toques de nobreza, como cabe a todo rei.

Os homens por trás do estilo de Michael eram os americanos Michael Bush e Dennis Tompkins, que desenharam quase todas as roupas usadas por ele em seus concertos. Trabalho bem sucedido: foram marcantes suas jaquetas militares estilizadas, as luvas com brilhos, as calças justas, as meias brancas, o chapéu Fedora, os óculos Ray Ban modelo aviador, os muitos dourados dos acessórios… Em meados dos anos 90, a carreira de Michael começava a declinar e ele bem que tentou um novo estilo mais ao gosto de época, calça preta, camisa branca aberta, com regata por baixo. Depois veio a fase alfaiataria impecável, com a qual enfrentou os tribunais. Mas nos ternos sempre tinha um douradinho, uma fita, um broche…

Bota-armadura de Michael, em 2001, e a coleção futurista de Guesquiere para Balenciaga, em 2007

Bota-armadura de Michael, em 2001, e a coleção futurista de Guesquiere para Balenciaga, em 2007

Foram manrcantes eu disse? Ainda são. Agora mais do que nunca. Por anos conhecida como a década do mau gosto, os anos 80 foram recentemente “perdoados”. Como esse titulo já foi ostentado pela década de 70, parece comprovada a teoria de que 20 anos é o tempo necessário para uma moda ser depurada e reabilitada. Com a década de 80 novamente bombando em leggings — alô American Appareil — polainas e ombreiras, associado aos 50 anos de idade do ídolo e anúncio de sua turnê, muitas marcas prestaram homenagem a Michael em suas coleções de inverno.

Jaqueta Balmain da Rihanna remete ao look de Michael em 1984

Jaqueta Balmain da Rihanna remete ao look de Michael em 1984

Os exemplos mais célebres são as luvas Louis Vuitton, as jaquetas Balmain, o paletó de tachas Givenchy, que Michael antenadíssimo inclusive acabou adotando em suas últimas aparições.

Nas passarelas locais, também ecoaram os gritos de Michael Jackson… (Mark Greiner, Lindebergue Fernandes e Piorski, no último Dragão Fashion):

mklilipiorski

Resumindo: reis não morrem, meu bem, saem de cena.