Tag Archives: Crise

Índia com jeitinho brasileiro *

14 abr

No Brasil é assim: não há passarela mais influente do que a novela das oito da Rede Globo. Se Glória Perez situa sua trama na Índia, de imediato o País se torna a bola da vez e o comércio tem que correr atrás para atender o desejo dos consumidores. Ainda mais se conta com uma mãozinha do Oscar, que deu oito prêmios a uma película filmada em Mumbai. Problema: a moda pegou os empresários de surpresa e, com prazo apertado, crise financeira e alta do dólar, as importações ficaram inviáveis. [ >>> ]

Moda cearense se destaca em valor agregado *

Em 15 anos, a indústria de vestuário cearense praticamente quadruplicou o valor agregado de suas exportações. Em 2008, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), descontados os insumos utilizados na produção, o produto feito no Ceará teve um valor médio de US$ 47,58, por quilo. Hoje, é o segundo maior do País, atrás apenas do Rio de Janeiro, onde o valor agregado pelas empresas gira em torno de US$ 68 por quilo. A média nacional é de US$ 34,88. [>>>]

Investimento de R$ 6 mi em centro tecnológico *

Dois dos carros-chefes da economia cearense, os setores têxtil e de confecções ganharão um reforço competitivo até o próximo ano. Com investimento de R$ 6 milhões, funcionará o CTCTV (Centro de Tecnologia da Câmara Têxtil e do Vestuário Ana Amélia Bezerra de Menezes). O projeto arquitetônico e conceitos do empreendimento foram apresentados ontem no Senai da Parangaba, onde também foi lançada sua pedra fundamental. [>>>]

* Matérias minhas publicadas no Diário do Nordeste.

Dragão Fashion terá até R$ 1 milhão *

2 abr

O Dragão Fashion Brasil começa com um drible na crise. Com baixas na iniciativa privada, o organizador do evento, Cláudio Silveira, recorreu ao poder público e entidades de classe para manter os patrocínios na edição de 2009, que inicia a bateria de desfiles domingo próximo, no Centro de Convenções. Deu certo. Os investimentos ficarão entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão — o mesmo patamar do ano passado. [ >>> ]

* Matéria minha publicada no Diário do Nordeste.

Retrospectiva 2008

29 dez

O que abalou (para o bem e para o mal) a moda em 2008. Uma breve retrospectiva:

Saint Laurente, sempre provocador

Saint Laurent, sempre provocando, até mesmo sua natureza

Morte de Yves Saint Laurent.

Criatividade e talento com as agulhas podem até fazer um bom estilista, mas um verdadeiro gênio é aquele que sabe colocar isso aos anseios da sociedade. Enquanto a mulher lutava para assumir novos papéis, ele criou o smoking para elas. Hoje, é normal uma mulher usando calças, mas em meados dos anos 60, elas podiam ser barradas em hotéis e restaurantes. Não seria sua única provocação. Reconhecidamente tímido, posou nu para a campanha de seu perfume masculino nos anos 70. Foi pioneiro na promoção do prê-à-porter, vendendo roupas a preços menores em sua célebre Rive Gauche, acompanhando as novas necessidades de consumo pós-moderno. “Não fui eu quem mudou, foi o mundo. E este mudará sempre, e nós estamos eternamente condenados a adaptar nossas maneiras de ver, sentir e julgar”, disse na inauguração do famoso endereço. Foi ainda o primeiro a colocar modelos negras na passarela e a transmitir um desfile pela internet.

Michelle Obama fala, suas roupas também

Michelle Obama fala, suas roupas também

Michelle Obama e o figurino inteligente.

Esqueça as primeiras damas de efeito decorativo. Michelle Obama, cria de Princeton e Harvard, discursa tão bem quanto o marido, como provou em debates do qual participou. Alta, magra e bonita, foi alçada à ícone fashion, apontada como a sucessora de Jacqueline Kennedy. Ela aproveita a condição e usa seus vestidos para passar mensagens de parcimônia em tempos de recessão e esquentar a economia americana, ao priorizar marcas e estilistas locais, inclusive lojas de departamento. Yes, we can! A americana comum pode ser tão elegante quanto à primeira-dama. No discurso da posse, usou um Narciso Rodriguez, americano de origem cubana, totalmente condizente com o discurso de seu marido, de diálogo e de fim de barreiras.

A crise mundial e a retração do consumo.

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Ninguém passou incólume pelo efeito dominó das bolsas em todo o mundo

Claro que sempre existirão os muito, muito ricos de verdade que darão de ombros para crise e continuarão comprando seus produtos de luxo. Mas a classe média, que responde por boa parte da receita, com óculos, perfumes e bolsas, deve apertar o cinto. No sobe-e-desce das bolsas, grandes conglomerados não admitem, mas se não perderam dinheiro, ganharam menos. A hora é de traçar estratégias para fazer bom uso do orçamento. “Estamos trabalhando duro, focando economias, até mesmo como conceito mental”, disse Miuccia Prada ao jornal italiano La Stampa. Nisso, a Louis Vuitton desistiu de abrir uma nova loja no Japão, a Prada adiou sua entrada no mercado de capitais, Sergio Rossi fechou as portas nos Estados Unidos e as coleções masculinas de Marni e Valentino ficarão de fora da semana de moda de Milão. Semana passada, uma matéria da TV5 francesa mostrava uma repórter tentando – e conseguindo – descontos à vista na compra de vestidos de festa em lojas como a Chanel.

O fim da era de ouro da alta costura

Aposentadoria de Valentino.

Já anunciada ano passado, foi concretizada em janeiro com seu último desfile de alta costura na semana de moda de Paris. Desde a aposentadoria de Yves Saint Laurente, era o último remanescente da geração de ouro da alta costura. Sua saída marca o fim de uma era, de elegância ostensiva e um tanto conservadora. Há tempos, o grupo Permira, controlador da marca, já falava da necessidade de rejuvenescê-la e torná-la mais comercial. Foi esperto. Antes de o mandarem de volta pra casa, como aconteceu com Givanchy, pediu para sair. Agora, gasta sua fortuna ao dolce far niente, de evento em evento, inclusive aqui no Brasil, onde acompanhou a primeira edição do Claro Rio Summer.

A volta das supermodelos.

Claudia Schiffer, Eva Herzigova, Linda Evangelista, Naomi Campbell, Christy Turlington… Não, não é um videoclipe antigo do George Michael. Mas campanhas de marcas como Chanel, Cavalli, Prada e Louis Vuitton em 2008. De acordo com Karl Lagerfeld, “o tempo faz com que elas fiquem mais interessantes e insubstituíveis”. Mais do que isso: fez com elas se tornassem modelos mais representativos para uma parcela considerável de consumidoras, no auge da independência e do poder, inclusive aquisitivo, e que não se identificavam com as modelos cada vez mais jovens na publicidade de marcas tradicionais. Com o know-how adquirido, esse time volta com um novo status, de “embaixadoras” das marcas.

Existe EX-supermodelo?

Existe EX-supermodelo?

Moda é pra ser debatida.

Em 2008, senti na própria pele o quanto a moda ainda é vista como algo menor na academia. Mas minha experiência pessoal não vem ao caso. o que interessa é que as coisas estão melhorando e a moda está deixando de ser apenas vista, o que é importante, para ser também discutida. Finalmente foi realizado o primeiro Congresso Internacional de Moda, em Madri, com participação de Gilles Lipovetsky (nome já bem conhecido de quem estuda moda, não simplesmente acompanha “tendências”), Omar Calabresse e Jorge Lozano, entre outros. Anote aí: a moda “bomba” na semiótica. Em São Paulo, tivemos o Pense Moda – que promete ser intinerante em 2009, com versões reduzidas em outras cidades. Empresários e faculdades cearenses, mexam-se, por favor! Por aqui, o Maxi Moda foi uma boa iniciativa. Esperamos apenas que a próxima edição tenha menos histórias de vida e mais discussões sobre o que nos inquieta na atualidade.

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Rio de Janeiro, sol, mulatas... O Claro Rio Summer

Claro Rio Summer.

Evento para gringo ver. Trouxe imprensa internacional e compradores estrangeiros para o que, para muitos, temos de melhor e mais vendável, nosso beachwear, mas os negócios não se concretizaram. Algumas marcas mostraram que já estamos bem adiante do fio-dental, que fez a fama brasileira décadas atrás. Mas outras bem que podiam se livrar de alguns clichês, né? Saída com estampa do Cristo Redentor não foi um pouco demais, não? No balanço geral, razoável para uma primeira edição. “O fato de eu ter vindo para o Brasil neste momento já responde à pergunta (sobre a importância dos países emergentes no mercado de moda). Os países emergentes, tenho certeza, serão muito importantes para todo o mundo fashion”, afirmou Valentino à Folha de S. Paulo. Mas a organização do evento precisa descobrir onde estão os nós e desatá-los.

O bafão do Prêmio Moda Brasil.

Se divulgou como o primeiro prêmio da moda brasileira. Não é. Tivemos antes o Abit e o Agulha de Ouro. Depois, misturou concorrentes e jurados no mesmo balaio, levantando uma grande dúvida sobre a lisura do processo. Por fim, mais do mesmo: a premiação levou em conta somente o eixo Rio-SP, especialmente lojas e marcas que estavam dentro do shopping patrocinador do evento.

Melca Janebro - Fashion Rio - Inverno 2008

Desfile de Melca Janebro no Rio Moda Hype 2008

Estilistas cearenses.

A moda cearense deu um salto comercial considerável no último ano. Foi um alívio. Imagino o que é para um estilista ganhar uma certa visibilidade com eventos como o Dragão e depois ter que “se inspirar” no que está “bombando” no Brás e Bom Retiro para as confecções locais. Muitos descobriram que podem ser indepentes ou levar na paralela suas próprias lojas. Driblaram os altos custos de se instalarem em shopping center com pontos comerciais de rua. Um novo reduto se faz na Maria Tomásia, com Mar del Castro, Piorski, Lisblu… Mais adiante um pouco, está a Flor do Mato. Por ali também, a Jô-Iola. No Dionísio Torres, a união faz a força do Coletivo (leia-se Cândida Lopes, Lindeberg Fernandes, Ayres Jr. e outros). Na Monsenhor Tabosa, está a Melca Janebro. Tem outras, mas essas são as que me vieram à cabeça agora, até porque estão no meu armário.

O vestido de Michelle

4 dez

Quem vestirá Michelle Obama no baile da posse? O portal WWD lançou o desafio e pediu que vários criadores desenvolvessem looks para a primeira-dama usar na noite de 20 de janeiro. Entre os 42 croquis, o mainstream da moda norte-americana (Diane Von Furstenberg, Michael Kors, Zac Posen…), pesos-pesados europeus (Karl Lagerfeld, Christian Lacroix) e algumas novidades (como a Rodarte).

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Modelo Thakoon na convenção do partido

Eleita a mais bem vestida de 2008 pela Vanity Fair antes mesmo de tomar posse, Michelle sabe que os olhos do mundo estão sobre ela e seu marido. Inteligente, sabe que ser alçada ao posto de “ícone fashion” pode fazer mais do que massagear o ego. Pode ser passar recados, pode ser política.

Durante a campanha, optou por marcas pouco conhecidas (Donna Ricco, J. Crew, Maria Pinto), novidades (Thakoon, Jason Wu) e nas entrevistas dizia ser uma grande consumidora de lojas de departamentos, como a H&M e White Black House Market. E se deu melhor perante a opinião pública do que a chuva de dólares gasta no visual de Sarah Palin em plena crise econômica e impostos a rodo na população americana.

O baile é tradicional, a Casa Branca também, mas não se pode dizer o mesmo de seus novos ocupantes. Posso estar enganada, mas não creio que Michelle Obama escolha um dos medalhões sugeridos pelo portal WWD. Ok, foi Narciso Rodriguez que criou o vestido da festa da vitória. Mas não esqueçamos, um medalhão latino, descendente de cubanos. Não importa se o modelo estava bonito ou feio, como se opinou a torto e a direito, mas não havia nada mais apropriado ao discurso de Barack Obama. O discurso das mudanças, da tolerância, das minorias (como eles) e do fim das barreiras.

Familia Obama e sua harmonia até nas cores

Na festa da vitória, vestido Narciso Rodriguez e a família Obama mostra sua harmonia até nas cores

Recessionistas

4 nov

Listinha de links atualizada aí do lado, com a entrada do Última Moda, extensão da coluna homônima da Folha de São Paulo. Gosto muito da maneira como o Alcino Leite Neto escreve: direto, conciso, informativo, sem fru-frus, ai ais e uós tão comuns no jornalismo de moda. Talvez por ser egresso de outras editorias (o que lhe dá uma visão mais abrangente do mundinho fashion, para além das tendências), talvez pela linha editorial do jornal (não sendo um veículo especializado, tem que se comunicar bem com todo leitor, fashionista ou não).

Isabeli Fontana, em clima "Great Depression", para a Vogue America

Isabeli Fontana, em clima "Great Depression" para a Vogue America

O importante é que o blog está sendo bem atualizado, vários posts por dia, com conteúdo que ficou de fora da coluna. Mais informal também, como é próprio dos blogs. E logo de cara encontrei uma boa dica dessa reportagem no NY Times, assinada por Natasha Singer, “A Label for a Pleather Economy”, sobre a entrada em cena do “recessionistas”: materiais mais baratos, pontas de estoque, segundas linhas ou apenas uma justificativa para consumir sem culpa. Seria o fim da era “Sex & the city” e suas consumidoras compulsivas, segundo o Style.com, citado pela jornalista.

Por acaso, essa semana reprisava o episódio em que Carrie leva um fora de seu ficante Berger, mas antes recebe uma ligação de Mr. Big – e atende o telefone bem no meio da Century 21.

Chega de economês! E o trend?

17 out

Embora Vivienne Westwood tenha mostrado sua coleção Primavera/Verão 2009 no primeiro dia de desfiles com um lema condizente com o momento – “Em tempos difíceis como este, vista-se com elegância e faça você mesmo” – e Alessandra Facchinetti tenha sido rifada da Valentino, os efeitos da crise nas coleções só serão sentidos de forma mais evidente na próxima temporada. Por esse mês os estilistas da fashion week de NY reivindicaram mais tempo para concluir suas próximas coleções, criando uma desavença com os participantes da semana londrina que ficariam expremidos antes de Paris.

Provavelmente as coleções futuras virão mais simples, austeras e sóbrias. A história mostra que, em tempos conflituosos, essa é a regra. Exemplos não faltam: Guerras, Crash de NY, 11 de Setembro… Dessa vez não deve ser diferente. Não pega bem se vestir de decotes e babados pink enquanto cem mil famílias são despejadas, por dia, no Reino Unido, porque não conseguem pagar por suas casas. Certo que o preço de uma peça de grife continuará sendo absurdamente ostensivo, suficiente para bancar comida para um recém-desempregado da indústria automobilística por um ano. Mas sem dilemas morais. É assim mesmo, e não só na moda. Sem julgamentos, ok?

Márcio Madeira / Reprodução

Fotos: Márcio Madeira / Reprodução

Não sei se por terem antecipado o que viria ou se por mera coincidência, quem já deu esse choque de realidade acabou se sobressaindo na temporada, como Raf Simons, para Jil Sander (foto acima). Não vou me alongar. O About Fashion já fez um post bem bacana sobre isso. Vale a pena conferir. E como a moda é cíclica, quando a poeira assentar, esperemos por um mundo mais colorido, florido e suave, como também sempre acontece nos períodos pós-crise. Sim, crise é um caldo de oportunidade. Dior que o diga! Uniu a necessidade da indústria têxtil francesa de se desfazer de seus estoques ao desejo de uma sociedade que se achava no direito de ser bela e elegante de novo. Bingo! Metros de tecido, uma nova silhueta, mulheres felizes, homens orgulhosos e o nome cravado na história.

E eu com isso?

17 out

Se eu não compro Dior ou Chanel mesmo, o que eu tenho a ver com isso? Não existe só luxo na Europa e EUA. A C&A nossa de cada dia, por exemplo, é holandesa. Mas mesmo na raiz do meu Brasil brasileiros sobram alguns respingos. Digamos que eu seja dona de uma confecção e estava contando com um empréstimo de um banco brasileiro para pagar algumas dívidas, comprar umas máquinas ou contratar mais gente para atender as encomendas de Natal. O fato é que o crédito minguou no mundo todo, aqui também. Então, nêga, eu ia ter que me virar. Alguns planos podem ser adiados – os equipamentos novos, por exemplo – mas outros não. Se me encomendaram, eu tenho que entregar. Se eu tenho dívida, é melhor pagar. Em resumo, é aquela história de cobrir os pés descobrindo a cabeça. E na maioria dos casos, quem fica descoberto e acaba pagando a conta é o consumidor.