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Recessionistas

4 nov

Listinha de links atualizada aí do lado, com a entrada do Última Moda, extensão da coluna homônima da Folha de São Paulo. Gosto muito da maneira como o Alcino Leite Neto escreve: direto, conciso, informativo, sem fru-frus, ai ais e uós tão comuns no jornalismo de moda. Talvez por ser egresso de outras editorias (o que lhe dá uma visão mais abrangente do mundinho fashion, para além das tendências), talvez pela linha editorial do jornal (não sendo um veículo especializado, tem que se comunicar bem com todo leitor, fashionista ou não).

Isabeli Fontana, em clima "Great Depression", para a Vogue America

Isabeli Fontana, em clima "Great Depression" para a Vogue America

O importante é que o blog está sendo bem atualizado, vários posts por dia, com conteúdo que ficou de fora da coluna. Mais informal também, como é próprio dos blogs. E logo de cara encontrei uma boa dica dessa reportagem no NY Times, assinada por Natasha Singer, “A Label for a Pleather Economy”, sobre a entrada em cena do “recessionistas”: materiais mais baratos, pontas de estoque, segundas linhas ou apenas uma justificativa para consumir sem culpa. Seria o fim da era “Sex & the city” e suas consumidoras compulsivas, segundo o Style.com, citado pela jornalista.

Por acaso, essa semana reprisava o episódio em que Carrie leva um fora de seu ficante Berger, mas antes recebe uma ligação de Mr. Big – e atende o telefone bem no meio da Century 21.

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Chega de economês! E o trend?

17 out

Embora Vivienne Westwood tenha mostrado sua coleção Primavera/Verão 2009 no primeiro dia de desfiles com um lema condizente com o momento – “Em tempos difíceis como este, vista-se com elegância e faça você mesmo” – e Alessandra Facchinetti tenha sido rifada da Valentino, os efeitos da crise nas coleções só serão sentidos de forma mais evidente na próxima temporada. Por esse mês os estilistas da fashion week de NY reivindicaram mais tempo para concluir suas próximas coleções, criando uma desavença com os participantes da semana londrina que ficariam expremidos antes de Paris.

Provavelmente as coleções futuras virão mais simples, austeras e sóbrias. A história mostra que, em tempos conflituosos, essa é a regra. Exemplos não faltam: Guerras, Crash de NY, 11 de Setembro… Dessa vez não deve ser diferente. Não pega bem se vestir de decotes e babados pink enquanto cem mil famílias são despejadas, por dia, no Reino Unido, porque não conseguem pagar por suas casas. Certo que o preço de uma peça de grife continuará sendo absurdamente ostensivo, suficiente para bancar comida para um recém-desempregado da indústria automobilística por um ano. Mas sem dilemas morais. É assim mesmo, e não só na moda. Sem julgamentos, ok?

Márcio Madeira / Reprodução

Fotos: Márcio Madeira / Reprodução

Não sei se por terem antecipado o que viria ou se por mera coincidência, quem já deu esse choque de realidade acabou se sobressaindo na temporada, como Raf Simons, para Jil Sander (foto acima). Não vou me alongar. O About Fashion já fez um post bem bacana sobre isso. Vale a pena conferir. E como a moda é cíclica, quando a poeira assentar, esperemos por um mundo mais colorido, florido e suave, como também sempre acontece nos períodos pós-crise. Sim, crise é um caldo de oportunidade. Dior que o diga! Uniu a necessidade da indústria têxtil francesa de se desfazer de seus estoques ao desejo de uma sociedade que se achava no direito de ser bela e elegante de novo. Bingo! Metros de tecido, uma nova silhueta, mulheres felizes, homens orgulhosos e o nome cravado na história.

E eu com isso?

17 out

Se eu não compro Dior ou Chanel mesmo, o que eu tenho a ver com isso? Não existe só luxo na Europa e EUA. A C&A nossa de cada dia, por exemplo, é holandesa. Mas mesmo na raiz do meu Brasil brasileiros sobram alguns respingos. Digamos que eu seja dona de uma confecção e estava contando com um empréstimo de um banco brasileiro para pagar algumas dívidas, comprar umas máquinas ou contratar mais gente para atender as encomendas de Natal. O fato é que o crédito minguou no mundo todo, aqui também. Então, nêga, eu ia ter que me virar. Alguns planos podem ser adiados – os equipamentos novos, por exemplo – mas outros não. Se me encomendaram, eu tenho que entregar. Se eu tenho dívida, é melhor pagar. Em resumo, é aquela história de cobrir os pés descobrindo a cabeça. E na maioria dos casos, quem fica descoberto e acaba pagando a conta é o consumidor.

A bolsa ou a vida

16 out

“A moda é um luxo, não é uma necessidade, ela deve fazer sonhar”, afirmou o estilista Marc Jacobs ao jornal francês “Le Monde”, na Semana de Moda de Paris. Foi uma grande rabissaca a quem lhe perguntava sobre a crise mundial que dominava – e ainda domina – as machetes. Só que, por mais que a indústria da moda faça de conta que não é com ela, não é beeeem assim, não. Tirando os ermitãos que vivem de luz, todo o resto do mundo é afetado quando uma crise nessas dimensões nasce e cresce bem no meio do coração capitalista: os bancos.

Paris - Louis Vuitton Spring 09, by Marc Jacobs

Paris - Louis Vuitton Spring 09, by Marc Jacobs

Não é a primeira crise econômica por que o mundo passa. Pode-se dizer que a Grande Depressão de 1929 foi maior (afinal o que são 13 bancos quebrados, diante de mais de 1.500? Isso só nos EUA), mas veja o quanto o mundo mudou em quase 80 anos! Um banco quebra aqui, ferra uma empresa do outro lado do oceano – ou até um país inteiro, veja o caso da Islândia. E desta vez diversas gigantes da moda serão atingidas frontalmente. No século XXI, uma empresa familiar fechadinha virou coisa do passado. O planeta fashion é dos super-conglomerados, como LVMH (Louis Vuitton, Fendi e Moët & Chandon, entre outras) e PPR (que controla o grupo Gucci), por exemplo. E eles se capitalizam onde mesmo? No mercado de ações!

Na bolsa de valores de Paris, é possível adquirir ações da Hermès ou Dior. Em Milão, temos Valentino e Hugo Boss, do grupo Parmira. Nos EUA, Ralph Lauren. Agora, pense: as estimativas apontam que o mercado acionário global (a soma de todas as bolsas do mundo) já perdeu mais de US$ 15 trilhões com a crise. É MUITO dinheiro, é como se toda a economia do Brasil tivesse evaporado umas oito vezes (o PIB nacional é de US$ 1,9 trilhão). Se eu fosse acionista de qualquer empresa, de moda ou não, de luxo ou não, certamente estaria surtando uma hora dessas. Óbvio que quanto mais forte é uma marca, menos suscetível ela fica à volatilidade do mercado. Mas ninguém passa incólume pela ciranda financeira. Duvida? Olha o gráfico da LVMH:

J'Adore, um dos perfumes mais vendidos no mundo

J'Adore, um dos mais vendidos no mundo

Na França, a indústria da moda só perde para o turismo na geração de divisas para a economia. É uma força gigantesca! Diante de tal cenário, analistas de mercado já apontam que as grifes terão que investir ainda mais em um caminho no qual já vinham seguindo: uma clientela maior e menos seleta. Claro que sempre existirão ricos no mundo, mas nos últimos anos o mercado de luxo vem sendo alimentado por uma classe média que faz malabarismos com o orçamento, mas sabe o que é bom. Gente que não pode se atrever num vestido de alta costura Dior by Galliano, mas que compra um frasco de J’Adore ou expreme no cartão de crédito um óculos, uma bolsa, um chaveirinho…

Ok, falar em recessão é exagero, mas que o ritmo deve cair, isso deve. Depois de crescer 13% em 2007, o segmento de luxo espera uma expansão mundial de no máximo 8% neste ano, segundo a Eurostaf, consultoria do grupo que edita o jornal econômico francês “Les Echos”. Com seus tradicionais mercados (Europa, EUA, Japão) em declínio, especialistas ouvidos pelo jornal apontam que o movimento dessas empresas deve ser nos países emergentes, com economias em expansão, que não estão tão ligados ao epicentro da crise e com um consumo interno aquecido.

Loja da Tiffany em SP

São países como Brasil, Rússia, Índia e China, que não por acaso formam no “economês” a sigla BRIC e que responderam por 26% das vendas da Louis Vuitton em 2007. E aí o nosso país tem pontos positivos e negativos: por um lado, o mercado de luxo cresceu 35% entre 2000 e 2006 e já temos Tiffany, Chanel, Dior, Burberry… por outro, o público consumidor se concentra em SP (principalmente) e Rio. Sem falar na violência…

A Prada, que tinha anunciado a intenção de abrir seu capital em 2008, não é boba nem nada: está tudo suspenso até o mercado se acalmar.

E lembra do tal “Gisele Bundchen Stock Index”, que subia alucinadamente, que passava a Dow Jones e tal? Pois é, despencou. Nem Gisele segurou a crise.

* Não tem jeito. Depois de anos no batente, por mais que eu me esforce pra não falar de bolsas e crises e tais, a repórter de economia acaba gritando!