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Mais um figurino: Amor à Flor da Pele

3 jun

Este é um dos figurinos mais emocionantes do cinema. Alguém com olhar menos atento poderá dizer que se trata do mesmo vestido em padronagens diferentes. E é mesmo, um lindo “cheongsam”, repetido 46 vezes para ser mais exato. Tudo é muito sutil e com um clima nouvelle vague irresistível.

Vale contextualizar que Wong Kar Wai faz parte do movimento conhecido como Segunda Nova Onda do cinema de Hong Kong, que tem como uma de suas principais características sublinhar a identidade de um país com muitas “caras”. Já foi dominada pela Grã Bretanha, hoje é administrada pela China, em uma geopolítica bastante confusa (uma ilha capitalista e bem sucedida em um país comunista radical).

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Vemos na tela um país dividido entre a tradição chinesa e o consumismo e modernidade britânica, além de uma grande incerteza em relação ao futuro. E é assim que encontramos a protagonista, Li-Zhen, nos anos 60, uma Jackie O. de olhos puxados. O requinte do figurino está nessa sutil observação da influência ocidental em Hong Kong, da mulher que troca freneticamente de roupa na impossibilidade (ou medo) de mudar de vida. Estampas modernas sobre um modelo tradicional sedutor, mas asfixiante, justo, rígido, de gola alta. O vermelho forte a marcar sua perturbação; o verde, o fim da encenação, entre outros simbolismos — como o chinelo, quando “a outra” toma o lugar  da esposa; a bolsa e a gravata como indícios da traição.

O nome do cara: William Chang! Responsável pela produção, edição e por esse figurino lindo de doer — e nesse caso não é apenas força de expressão.

Joguinho cinéfilo

3 dez

Não sei por que não vi na tela grande “Cada um com seu cinema”, coletânea de curtas-metragens sobre… cinema. O filme é de 2007 e foi gravado em comemoração aos 60 anos do Festival de Cannes, mas só assisti um dia desses no Telecine. São 33 diretores convidados, e só peso-pesado. Como em quase todos o crédito do diretor só aparece ao final do filmete, de mais ou menos três minutos, os cinéfilos como eu ficam fazendo joguinhos de adivinhação. Alguns não precisam de mais do que dez segundos. Além dos óbvios, como Nani Moretti, que é o próprio é o protagonista, e Walter Salles (quem mais iria colocar uma dupla de repentistas, se não o brasileiro?), temos os que colocam sua identidade logo de cara, como Amos Gitai (questão judaica), Kierostami (Palestina e dispositivo), Wong Kar Wai (suas cores e cortes inconfundíveis), David Lynch (David Lynch, ora mais!).