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Roupa é subjetividade

5 nov

Tinha postado esse conto da Marina Colasanti no ano passado, antes do Blogueisso me deixar na mão e apagar boa parte do meu passado bloguístico. Consegui recuperar os rascunhos de alguns posts e irei postá-los pouco a pouco. Resolvi começar com esse, nem sei por quê.

Analisamos o percurso narrativo desse texto em uma aula de semiótica discursiva no primeiro semestre de curso. Não se preocupem, deixarei os quadrados semióticos de lado e postarei apenas o conto. Curto e contundente. Prestem atenção no papel da vaidade (expressa pelas roupas, maquiagens, cabelos) na construção da auto-estima e dos relacionamentos.

Marquei algumas passagens em negrito, não à toa. Tirar seus cortes de seda e batons é também silenciá-la, atacando sua subjetividade. De sujeito, ela passa a animal, a objeto, a uma pálida sombra do que fora.

 

Para que ninguém a quisesse
In: Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.

Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.

Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.

Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.

Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.

Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido em uma gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.

 

* * *

PÓS POST: Pra quem gosta de moda e literatura: Um dia antes, o super Oficina de Estilo fez um post delícia relacionando a teoria de construção do conto (de Edgard Allan Poe) com o processo do vestir.

Moda na Fortaleza “Belle Époque”

12 ago

A dica veio via twitter pela jornalista Thais Aragão, agora moradora de Porto Alegre, mas que mantém os olhos bem atentos sobre o Ceará:

Moda e cidade: um footing pela Fortaleza dos anos 1920
Dia 14, sábado, 15h às 18h30


A moda, geralmente associada ao fashion, luxo, exótico e a futilidade, parece não interagir tanto com outros aspectos mais profundos quanto à individualidade, identidade e à psicologia dos indivíduos e suas cidades. Nesse sentido, convidamos aos interessados, a fazer um footing por Fortaleza, aos lugares e suas histórias que fizeram sucesso entre a elite, por conta da moda dos anos 1920, com o glamour e requinte franceses que impulsionaram pessoas e o comércio, dando um suposto ar de modernidade divulgado pela imprensa local no início do século XX.  210min.

Mediadora: Diocleciana Paula, historiadora e pesquisadora de gênero.
Participantes: Interessados em geral, mediante inscrição prévia.
Ponto de saída: Centro Cultural Banco do Nordeste.
Inscrições: A partir de 10/08, na recepção do CCBNB.

O Percursos Urbanos é uma atividade educativa desenvolvida pelo Centro Cultural Fortaleza, do Banco do Nordeste, em parceria com a ONG Mediação de Saberes. São roteiros culturais temáticos realizados em ônibus urbanos, sempre aos sábados. Gratuito. Você pode conferir a programação completa para o mês de agosto no site www.bnb.gov.br.

Ê, esse é o meu Brasil

25 jan

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Adouro! E que venha Maya!

Foto: Filipe Palácio

A pos(s)e de Michelle

23 jan
Isabel Toledo na posse

Isabel Toledo na posse...

Michelle Obama mostrou mais uma vez que é uma mulher de personalidade. Não deseja comparações com Jackie O. ou Carla Bruni. Seu aguardado vestido fugiu das tradicionais escolhas de primeiras-damas americanas, de azul, vermelho e branco – cores da bandeira dos Estados Unidos. Escolheu um reluzente amarelo, cor de esperança e renovação, emblemática da expectativa em torno do governo de Barack Obama, nesses tempos de tanta incerteza, em que todo o mundo parece tatear no escuro. Ainda não sei dizer se gostei da combinação de luva e sapato verde, mas bato palmas novamente por sair do convencional bege. Mas, admito, deixaria o brocado apenas no vestido ou no casaco, para ficar menos over.

Muitos criticaram a forma, sugerindo que um godê seria a melhor opção para disfarçar os quadris largos. Mas devemos lebrar que era inverno, e a primeira-dama não poderia se arriscar a ser vítima de um vento forte em plena posse do marido. E muito do volume visto nas formas de Michelle vinha provavelmente do colete de segurança usada por baixo da roupa. O vestido reto com casaco longo é um daqueles clássicos há décadas. Esse shape foi a única escolha mais convencional. O restante foi pura inovação: nada de estrelados europeus, como Chanel ou Dior, ou figurões americanos, como Calvin Klein, Ralph Lauren ou Diane Von Fustenberg.

Quem vestiu a primeira dama nesse dia tão importante foi Isabel Toledo. À noite, o vestido branco de um ombro só veio de Jason Wu. Ambos são nomes promissores e conceituados, mas apenas entre aqueles que acompanham a moda além do mainstream, o que mostra bem a cara do casal Obama: estilosos, modernos e bem informados (Michelle é a rainha do high-low, misturando estilistas a lojas mais populares, como J.Crew). Vale lembrar que Isabel desembarcou em Nova York nos anos 80, vindo de Cuba — assim como Narciso Rodriguez que a vestiu na festa da vitória, e Jason Wu é um jovem de apenas 26 anos com origens em Taiwan. Mais uma vez, como já havia dito, Michelle parece querer dizer que a nova América vai ser mais aberta a todos.

Há uma frase muita repetida por aí que alguns atribuem a Chanel, outros a YSL, mas independente da autoria, cai bem à situação: se realmente a melhor roupa de uma mulher são os braços do homem que ela ama, Michelle deve ser a mulher mais bem vestida da política internacional. Afinal, nada melhor do que as declarações do maridão, o sorriso apaixonado e a dança mais “afinada” dos bailes da Casa Branca. Como bem disse Edgard Almeida, “pela primeira vez em muitos anos, parece que finalmente os americanos têm um presidente que faz sexo (com a sua esposa!)”.

... e Jason Wu no baile

... e Jason Wu no baile

Sobre Isabel Toledo, veja o comentário de Lilian Pacce:

Retrospectiva 2008

29 dez

O que abalou (para o bem e para o mal) a moda em 2008. Uma breve retrospectiva:

Saint Laurente, sempre provocador

Saint Laurent, sempre provocando, até mesmo sua natureza

Morte de Yves Saint Laurent.

Criatividade e talento com as agulhas podem até fazer um bom estilista, mas um verdadeiro gênio é aquele que sabe colocar isso aos anseios da sociedade. Enquanto a mulher lutava para assumir novos papéis, ele criou o smoking para elas. Hoje, é normal uma mulher usando calças, mas em meados dos anos 60, elas podiam ser barradas em hotéis e restaurantes. Não seria sua única provocação. Reconhecidamente tímido, posou nu para a campanha de seu perfume masculino nos anos 70. Foi pioneiro na promoção do prê-à-porter, vendendo roupas a preços menores em sua célebre Rive Gauche, acompanhando as novas necessidades de consumo pós-moderno. “Não fui eu quem mudou, foi o mundo. E este mudará sempre, e nós estamos eternamente condenados a adaptar nossas maneiras de ver, sentir e julgar”, disse na inauguração do famoso endereço. Foi ainda o primeiro a colocar modelos negras na passarela e a transmitir um desfile pela internet.

Michelle Obama fala, suas roupas também

Michelle Obama fala, suas roupas também

Michelle Obama e o figurino inteligente.

Esqueça as primeiras damas de efeito decorativo. Michelle Obama, cria de Princeton e Harvard, discursa tão bem quanto o marido, como provou em debates do qual participou. Alta, magra e bonita, foi alçada à ícone fashion, apontada como a sucessora de Jacqueline Kennedy. Ela aproveita a condição e usa seus vestidos para passar mensagens de parcimônia em tempos de recessão e esquentar a economia americana, ao priorizar marcas e estilistas locais, inclusive lojas de departamento. Yes, we can! A americana comum pode ser tão elegante quanto à primeira-dama. No discurso da posse, usou um Narciso Rodriguez, americano de origem cubana, totalmente condizente com o discurso de seu marido, de diálogo e de fim de barreiras.

A crise mundial e a retração do consumo.

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Ninguém passou incólume pelo efeito dominó das bolsas em todo o mundo

Claro que sempre existirão os muito, muito ricos de verdade que darão de ombros para crise e continuarão comprando seus produtos de luxo. Mas a classe média, que responde por boa parte da receita, com óculos, perfumes e bolsas, deve apertar o cinto. No sobe-e-desce das bolsas, grandes conglomerados não admitem, mas se não perderam dinheiro, ganharam menos. A hora é de traçar estratégias para fazer bom uso do orçamento. “Estamos trabalhando duro, focando economias, até mesmo como conceito mental”, disse Miuccia Prada ao jornal italiano La Stampa. Nisso, a Louis Vuitton desistiu de abrir uma nova loja no Japão, a Prada adiou sua entrada no mercado de capitais, Sergio Rossi fechou as portas nos Estados Unidos e as coleções masculinas de Marni e Valentino ficarão de fora da semana de moda de Milão. Semana passada, uma matéria da TV5 francesa mostrava uma repórter tentando – e conseguindo – descontos à vista na compra de vestidos de festa em lojas como a Chanel.

O fim da era de ouro da alta costura

Aposentadoria de Valentino.

Já anunciada ano passado, foi concretizada em janeiro com seu último desfile de alta costura na semana de moda de Paris. Desde a aposentadoria de Yves Saint Laurente, era o último remanescente da geração de ouro da alta costura. Sua saída marca o fim de uma era, de elegância ostensiva e um tanto conservadora. Há tempos, o grupo Permira, controlador da marca, já falava da necessidade de rejuvenescê-la e torná-la mais comercial. Foi esperto. Antes de o mandarem de volta pra casa, como aconteceu com Givanchy, pediu para sair. Agora, gasta sua fortuna ao dolce far niente, de evento em evento, inclusive aqui no Brasil, onde acompanhou a primeira edição do Claro Rio Summer.

A volta das supermodelos.

Claudia Schiffer, Eva Herzigova, Linda Evangelista, Naomi Campbell, Christy Turlington… Não, não é um videoclipe antigo do George Michael. Mas campanhas de marcas como Chanel, Cavalli, Prada e Louis Vuitton em 2008. De acordo com Karl Lagerfeld, “o tempo faz com que elas fiquem mais interessantes e insubstituíveis”. Mais do que isso: fez com elas se tornassem modelos mais representativos para uma parcela considerável de consumidoras, no auge da independência e do poder, inclusive aquisitivo, e que não se identificavam com as modelos cada vez mais jovens na publicidade de marcas tradicionais. Com o know-how adquirido, esse time volta com um novo status, de “embaixadoras” das marcas.

Existe EX-supermodelo?

Existe EX-supermodelo?

Moda é pra ser debatida.

Em 2008, senti na própria pele o quanto a moda ainda é vista como algo menor na academia. Mas minha experiência pessoal não vem ao caso. o que interessa é que as coisas estão melhorando e a moda está deixando de ser apenas vista, o que é importante, para ser também discutida. Finalmente foi realizado o primeiro Congresso Internacional de Moda, em Madri, com participação de Gilles Lipovetsky (nome já bem conhecido de quem estuda moda, não simplesmente acompanha “tendências”), Omar Calabresse e Jorge Lozano, entre outros. Anote aí: a moda “bomba” na semiótica. Em São Paulo, tivemos o Pense Moda – que promete ser intinerante em 2009, com versões reduzidas em outras cidades. Empresários e faculdades cearenses, mexam-se, por favor! Por aqui, o Maxi Moda foi uma boa iniciativa. Esperamos apenas que a próxima edição tenha menos histórias de vida e mais discussões sobre o que nos inquieta na atualidade.

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Rio de Janeiro, sol, mulatas... O Claro Rio Summer

Claro Rio Summer.

Evento para gringo ver. Trouxe imprensa internacional e compradores estrangeiros para o que, para muitos, temos de melhor e mais vendável, nosso beachwear, mas os negócios não se concretizaram. Algumas marcas mostraram que já estamos bem adiante do fio-dental, que fez a fama brasileira décadas atrás. Mas outras bem que podiam se livrar de alguns clichês, né? Saída com estampa do Cristo Redentor não foi um pouco demais, não? No balanço geral, razoável para uma primeira edição. “O fato de eu ter vindo para o Brasil neste momento já responde à pergunta (sobre a importância dos países emergentes no mercado de moda). Os países emergentes, tenho certeza, serão muito importantes para todo o mundo fashion”, afirmou Valentino à Folha de S. Paulo. Mas a organização do evento precisa descobrir onde estão os nós e desatá-los.

O bafão do Prêmio Moda Brasil.

Se divulgou como o primeiro prêmio da moda brasileira. Não é. Tivemos antes o Abit e o Agulha de Ouro. Depois, misturou concorrentes e jurados no mesmo balaio, levantando uma grande dúvida sobre a lisura do processo. Por fim, mais do mesmo: a premiação levou em conta somente o eixo Rio-SP, especialmente lojas e marcas que estavam dentro do shopping patrocinador do evento.

Melca Janebro - Fashion Rio - Inverno 2008

Desfile de Melca Janebro no Rio Moda Hype 2008

Estilistas cearenses.

A moda cearense deu um salto comercial considerável no último ano. Foi um alívio. Imagino o que é para um estilista ganhar uma certa visibilidade com eventos como o Dragão e depois ter que “se inspirar” no que está “bombando” no Brás e Bom Retiro para as confecções locais. Muitos descobriram que podem ser indepentes ou levar na paralela suas próprias lojas. Driblaram os altos custos de se instalarem em shopping center com pontos comerciais de rua. Um novo reduto se faz na Maria Tomásia, com Mar del Castro, Piorski, Lisblu… Mais adiante um pouco, está a Flor do Mato. Por ali também, a Jô-Iola. No Dionísio Torres, a união faz a força do Coletivo (leia-se Cândida Lopes, Lindeberg Fernandes, Ayres Jr. e outros). Na Monsenhor Tabosa, está a Melca Janebro. Tem outras, mas essas são as que me vieram à cabeça agora, até porque estão no meu armário.

Spring 3001, by Catelbajac

24 nov

Melhor que o desfile em si de JC Castelbajac, foi o vídeo foi produzido em parceria com a Lego para a coleção “Spring 3001”. Atente para a primeira fila, com direito a lego de Anna Wintour. No site, é só clicar em News.

Via Overdose de Moda

Crazy fashion world

24 nov

Impressão minha ou this fashion world enlouqueceu completamente?
Adoro bacon, mas no meu macarrão a carbonara ou num McQualquerCoisa, não assim. Só me resta dizer ME.DO

Mal refeita desse susto, dou de cara com fotos do nightclub que a Prada inaugurou em Londres e que a Vogue UK classificou como “uma tacada de gênio”. Desculpa aí, mas quando a PRADA abre uma boate, a gente não espera que ele se pareça com uma barraca da Praia do Futuro.

Até cadeira de plástico tem!

Até cadeira de plástico tem!