Entre o hiper consumo e a sustentabilidade

1 set

Hoje tem um pequeno texto meu no Diário do Nordeste, com a minha opinião sobre moda e sustentabilidade. Fiquei super feliz com o convite da Iracema Sales, minha ex-colega de redação e amiga, que assina a matéria principal com a Gilvânia Monique, do Brechó Reivenção, e o pessoal do Bazar Emaús.

Já trabalhei em redação de jornal e sei que, muitas vezes, o espaço no papel é ingrato e temos que recorrer à edição (ou seja, cortar o texto, pra quem é de fora da área) e foi isso que aconteceu. Mas a gente tem blog pra quê, não é mesmo? Então aqui vai o texto na íntegra:

Entre o hiper consumo e a sustentabilidade

Fibras naturais, materiais reciclados e a quase onipresente “ecobag”. Sem dúvida, a indústria da moda está atenta ao desejo da sociedade em contribuir para a preservação do meio ambiente. Mas até que ponto temos práticas sustentáveis de fato na hora de nos vestirmos? Ou estamos nos protegendo atrás do rótulo “ecologicamente correto”? Você já se viu justificando uma compra cara ou desnecessária com um “mas é de algodão orgânico”?

Sem querer desmerecer as inúmeras pesquisas de material e de processos, com descobertas fascinantes, mas tem uma peça nessa engrenagem que não encaixa. Assim como a tecnologia torna celulares obsoletos a uma velocidade que mal conseguimos acompanhar, a indústria da moda tem na novidade seu principal motor. Hoje mais do que nunca, afinal as informações circulam a uma velocidade surpreendente e por espaços antes impensados.

Desfiles duas vezes por ano e delay de meses pra moda chegar as ruas? Passado!

Não espanta o avanço das redes de fast-fashion, com coleções novas nas lojas a cada semana – ou até menos. No Brasil, alguns fatores favorecem esse modo de produção: uma economia em expansão (que sobreviveu até as intempéries de uma crise internacional), a ascensão das classes C e D no mercado de consumo e a grande oferta de crédito. Um cenário tão propício que atraiu não apenas os magazines, mas também lojas de grife, para esse modelo que podemos resumir como “vi ontem – comprei hoje – uso amanhã – semana que vem começo tudo de novo”.

Certamente duas coleções por quinzena movimentam a economia e geram empregos bem mais do que duas coleções por ano. Então qual é o problema? Essa transitoriedade tem seu preço: ao sabor das tendências, esgotam-se os recursos naturais, gera-se desperdício e cresce a poluição. A indústria da moda já dá sinais que elegerá o mocassim como o must have da próxima estação, e o clog que hoje calça os pés de 9 entre 10 it girls voltará a ser um tamanco como outro qualquer e será esquecido no armário – com todo o couro, madeira, água, energia e mão de obra empregados na sua fabricação.

Longe de mim pregar um boicote às novidades, aos estilistas, à moda. Muito menos há intenção de defender um mundo 100% funcional, onde o simplesmente belo e desejável não tem vez. Mas é fundamental que tenhamos consciência do paradoxo que vivemos: a pressão pelo hiper consumo e a necessidade de adotar posturas ecologicamente corretas. Antes de puxar o cartão de crédito para comprar a última it bag, tentar responder algumas perguntas. Quanto estou pagando? Por quanto tempo vou usar? Com que material foi produzido? Em que condições foi fabricado? Vale lembrar que as pessoas fazem parte do meio ambiente e que não são raros os casos de marcas que terceirizam sua produção em países onde as leis trabalhistas são mais frouxas.

Podemos ainda pensar em formas alternativas e sustentáveis de consumo, fazendo uma roupa mudar de aparência ou de dono. Nos Estados Unidos, a crise ressuscitou os famosos garage sales, onde aquelas peças descartadas são vendidas mais baratas na garagem de casa para amigos e vizinhos. Por que não fazer um bazar de trocas informal com as amigas ou explorar a customização? Outra opção é procurar brechós para vender aquela roupa que já caiu no enjôo e adquirir outras. Dá para fazer isso no meio físico e também no virtual, aproveitando todos os revivals que a moda tanto aprecia. Não se trata apenas de uma forma de pagar pouco para se vestir, mas de evitar o desperdício fazendo os objetos circularem e ganharem sobrevida.

2 Respostas to “Entre o hiper consumo e a sustentabilidade”

  1. Maria TeresaWeidlich (@TTzinhaw) outubro 18, 2012 às 3:16 pm #

    Sou pesquisadora em comunicação e moda e adorei o teu texto. Não se trata especificamente do meu foco o atento para a necessidade de optar por alternativas sustentáveis porém ele está engajado no intuito da minha pesquisa que é falar sobre a necessidade desses revivals do ponto de vista das identidades e como isso acontece através das redes. Se você tiver algum site para me indicar eu fico agradecida. Obrigada e Parabéns!!!

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  1. O Melhor da Semana – 29 de agosto a 4 de setembro / 2010 | - maio 2, 2011

    […] 1 Entre o hiper consumo e a sustentabilidade – No Primeira Fila Opinião sobre moda e […]

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