As mudanças no visual de Dilma

27 set

Há cerca de um mês, Dilma Rousseff conta com a assessoria de estilo de Alexandre Herchcovitch. Apesar da repercussão dessa notícia e da expectativa em torno dos resultados, não temos uma Dilma “super fashion” — e provavelmente não teremos. Esse é o tipo de trabalho em que as pesquisas de tendências contam pouco, muito mais importante é saber interpretar as pesquisas eleitorais.

O modelo que a candidata usou no debate da Record, ontem à noite, foi alvo de piadas no Twitter: estilo "Nosso Lar"

As pesquisas eleitorais sinalizam o que o público-alvo (os eleitores) espera do candidato. A intenção é ajustar a linguagem aos canais de comunicação e aos contextos de recepção. Então é claro que roupa não ganha eleição, mas é mais uma forma de comunicação não-verbal. Uma parte do “pacote” e que precisa ser coerente com o todo (discurso verbal, postura corporal, gestual, etc), de modo a conquistar novos eleitores e não perder os que já ganhou.

Embora o sentido seja vago e pessoal, o SIGNIFICADO é coletivo. Algo tem um certo significado quando uma comunidade de intérpretes atribui a esse algo um mesmo sentido. No caso das roupas, isso pode ser explícito (como os uniformes) ou uma convenção social (no caso vestir-se para o cargo que pretende ocupar).

Vamos ver alguns exemplos na prática. Segundo as primeiras pesquisas, a Dilma tinha dificuldade de obter votos entre os mais jovens. Além de uma linguagem mais coloquial, repara na mudança do modelo nos comícios.

Antes:

Depois:

Antes visual de tia ou professora, com babados e braços de fora. Depois a jaquetinha colorida virou curinga nos palanques. Não sei o material, mas é bem cortada, prática (sem risco de brechas descuidadas ou gordurinhas aparentes) e jovem (sem ser juvenil). As  cores mais claras também deram uma suavizada ao semblante da candidata, que tem fama de brava (quem já a entrevistou, bem sabe!).

Antes:

Depois:

O corte do blazer não apenas alonga a silhueta da Dilma (repara nesse decote), como é mais moderno e sóbrio do que a blusa de babados quando se trata de uma ocasião mais formal (na primeira foto ela está discursando para empresários na Federação das Indústrias do RS e na outra em um encontro com médicos em Brasília). Se a Dilma tem mesmo mais credibilidade por causa de um blazer? Não, mas esse é o lado cruel do código do vestuário: para a maioria dessas platéias, esse é um símbolo de credibilidade.

O fato é que o vestir é simbólico. Não é apenas um pedaço de pano, mas um pedaço de pano que adquire valor. Uma das estratégias de Carla Bruni para “apagar” seu passado é justamente investir num figurino clássico, elegante e sóbrio. O próprio Lula é outro exemplo de mudança de perfil vestimentar. Mas o melhor exemplo ainda é o da última eleição americana.

Sarah Palin, candidata a vice-presidente de John McCain era uma típica dona de casa caipira do Texas, com seus Rs puxados e defensora da família e da tradição, e que tinha entre seus eleitores pessoas que se identificavam com aquele espírito. Quando Michele Obama apareceu como ícone de estilo e elegância, a campanha de McCain quis transformar Palin em Michele.

Foi um tiro no pé. Para os eleitores parecia uma traição com o que ela era (que também era o que ELES eram) e uma imitação. Outra: a campanha gastou milhares de dólares para repaginar seu visual com marcas como Dior e Chanel. Isso no auge da crise econômica mundial que tinha origem nos EUA. Leitura fácil, né? “Nós pagando mais impostos e ela comprando roupas caras!”. Pra piorar, as roupas caras eram de grifes européias. Ou seja, o dinheiro estava indo para lá, não para o país que ela queria representar.

Na mesma época, Michele declara que compra roupas em lojas de departamentos. Entendeu a mensagem, né? É como se ela própria estivesse dando o exemplo de economia e ainda alimentava a esperança de que a americana comum, sem tantos recursos, poderia ter um estilo marcante. Além disso, dava aquela força na divulgação de novos estilistas e de designers de origem estrangeira, mas todos americanos. Acho que agora dá pra entender o que quis dizer por “pacote” imagético lá em cima: era um casal novo, uma nova visão política, novas formas de consumo… O novo que o slogan “Yes, we can” sintetizava aparecia também nas roupas.

Ou seja, só a roupa, descontextualizada, não adianta muita coisa.

>>> PS: Esse post não tem nada a ver com intenção de voto. Primeira Fila não revela seus candidatos. ;)

>>> Pós-post > CONSERTANDO: Apesar de comentadíssima, a consultoria de Alexandre Herchcovitch à Dilma Rousseff não se concretizou. Segundo a assessoria de imprensa do estilista, “devido à agenda de campanha e aos compromissos internacionais do estilista, o projeto de consultoria acabou não sendo efetivado. Devido a isso, em nenhum momento foram usadas criações ou sugestões de Alexandre Herchcovitch”. Erro meu, comi bola, sorry. Mas o resto do post continua válido, gente, porque é evidente que alguém fez uns ajustes no figurino da candidata. E tudo sobre o valor simbólico das roupas permanece.

Fotos: Portal R7, site oficial de Dilma Rousseff e NY Daily News

Anúncios

2 Respostas to “As mudanças no visual de Dilma”

  1. Douglas setembro 27, 2010 às 9:53 pm #

    Ótimo post!

    Imagem vende, chama a atenção e comunica algo. Ou esconde (no caso da Carla Bruni, que tem um passado bem podre). E tem que ser de forma bem pensada, p/ não acontecer o mesmo que aconteceu com a Sarah Palin. Puro marketing.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Melhor da Semana – 26 de setembro a 2 de outubro / 2010 | - fevereiro 25, 2011

    […] As mudanças no visual de Dilma – No Primeira Fila Um antes e depois que demonstra claramente como usar as roupas á favor da mensagem que se quer passar. […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: