Quando calaram Simonal

21 jul

* Se não viu o filme ou não conhece a história do Simonal, pare por aqui mesmo, ok? Não diga que não avisei…

filmeQuando estreou o documentário “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, percebi que eu era uma das poucas que conhecia algumas daquelas melodias cheias de suingue do Simonal. Não foi pela TV ou pelo rádio que o ouvi. A “culpa”, digamos assim, é da minha mãe, que mesmo engajada na esquerda ainda conserva um vinil do cara, do fim dos anos 60.

Vez por outra ela comentava sobre o incrível sucesso nas rádios, programas na TV, fotos com carrões e como tudo foi água abaixo após um bafafá envolvendo o Dops, que lhe rendeu a fama de dedo-duro e o ostracismo. Pra mim era difícil visualizar toda essa febre de que minha mãe falava.  Nunca tinha visto nada sobre esse cara. Quando nasci ele já estava sumido há uns 10 anos. Eram apenas os relatos dela e um vinil velho.

A capa do disco mostra o negão todo-no-pano-passado, como se diz aqui no Ceará, óculos escuros, postura tô nem aí, tomando água de coco em plena areia da praia. O nome do álbum, “Alegria Alegria – Vol. 2”, estampado lá em cima. Um pouco mais embaixo do outro lado uma espécie de aviso, “quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”.

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Após ver o documentário, me pareceu bem emblemático. Olhei o ano de lançamento do álbum, 1968. O mundo pegou fogo naquela época, mas Simonal não parecia estar nem aí. Ele só queria curtir a vida, alegria, alegria, ressaltar sua posição de negro vitorioso, bem sucedido, que invadia a praia dos brancos sem cerimônias. E é por aí que os diretores seguem: Simonal seria ingênuo e despreocupado demais pra se meter verdadeiramente nessa briga. Podia até ter mais simpatia por um lado do que outro, nada mais que isso. Mas chegado a se exibir, falar demais, meteu os pés pelas mãos…

Não apenas os depoimentos do amigos corroboram isso, mas também os dos que queimaram seu filme, após o fatídico episódio de 71. Admiráveis as falas sinceras de Sérgio Cabral, que o considerava superestimado, e Ziraldo, que admitiu: não havia como fugir da dicotomia naquela época, o Brasil era feito de bons e maus, a esquerda e a direita, sem meios termos. Os depoimentos de Jaguar soam desnecessários à primeira vista, mas depois se entende porque estão lá: mostrar o lado sacana da esquerda.

Várias vozes são ouvidas, inclusive a do contador, que detonou toda a história. Simonal acusou o funcionário de desfalque em suas contas. Não se poderia esperar que ele contratasse uma auditoria, né. Mas a surra encomendada foi muito mais do que uma surra, foi uma tortura nas dependências do Dops. Segundo o contador, Simonal foi conivente e inclusive viu seu estado no dia seguinte. Para amigos e parentes, ele não tomou conhecimento do que aconteceu ali. Achei honesto manter as duas versões. O que ficou mais claro é que, de um jeito ou de outro, ele errou — e errou feio. Não foi santo, fez a própria cova. Mas não perderam tempo antes de jogar a terra em cima.

É inevitável sair da sessão com algumas perguntas. A maior delas é “onde estavam os amigos de Simonal quando ele estava na pior, ferrando o fígado?”. Afinal gente como Pelé, Nelson Motta, Miele e Chico Anysio tinham voz no Brasil dos anos 70. Também não vimos seus pares, cantores. Passados mais de 30 anos do imbróglio, eles não foram capazes de fazer um mea culpa ou ainda acreditam que, sim, ele foi um delator fdp? Embora apareça aquele documento da Presidência da República, não foi possível ouvir alguém do Dops? Alguma das pessoas ligadas ao caso?

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São só alguns questionamentos que passaram pela minha cabeça e de vários que viram o filme. Mas, sim, agora deu pra ter uma idéia do tamanho do fenômeno Simonal. Já a dimensão do seu ostracismo se explica por si só. Se a idéia é resgatar o nome do cantor na história da música brasileira, precisaremos de mais um tempinho para ver se deu certo. Ainda não sei se seus disco estão sendo ou serão relançados, se há outros produtos a caminho. Só sei que o pessoal sai da sessão assobiando músicas que antes não conheciam. E isso é um bom começo. Lalala lalala…

A quem interessar, “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, está rolando pelo menos até quinta-feira, na sala 2 do Unibanco Dragão do Mar.

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