Compras de Natal

22 dez

A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

Cecília Meireles, no livro “Quatro Vozes”

Anúncios

2 Respostas to “Compras de Natal”

  1. marcelo inacio janeiro 3, 2008 às 7:35 pm #

    Melhor era deixar “sem comentários” no final. Mas, enfim… ficamos extremamente felizes! Ô!

  2. Charles C. janeiro 29, 2008 às 9:33 am #

    Mônica,

    Faz tempo que queria mandar uma notícia para ti. Como não tenho o seu e-mail, vai por aqui mesmo. :)

    Beijin.

    fashion

    A moda que só tem na internet

    Com uma idéia na cabeça, máquina de costura numa mão e um computador na outra, jovens estilistas montam lojas virtuais de street wear com inspiração na cultura pop

    LETICIA DE CASTRO
    DA REPORTAGEM LOCAL

    Primeiro foi a música, com Napster e, mais recentemente, MySpace. Depois o vídeo, com o YouTube. Agora, chegou a vez de a moda se instalar na internet.
    Esqueça os shopping centers e os desfiles da São Paulo Fashion Week. Essas roupas não são vendidas em lojas. A aposta da nova geração de designers é a praticidade e o baixo custo dos sites, que se transformam em lojas virtuais e atendem clientes em todo o país.
    Na contramão da indústria da moda, essas marcas não seguem tendências e não respeitam o calendário oficial de coleções. A principal inspiração é a cultura pop, traduzida em estampas de camisetas.
    O começo pode ser até acidental. Foi o caso da Alguns Tormentos, do estudante de moda Eduardo Biz, 22. Há três anos, ele postou em seu blog algumas estampas que havia criado, com a intenção de mostrar aos amigos.
    As ilustrações de bandas indies fizeram sucesso e os amigos encomendaram. “Vi que não tinha camiseta de banda legal nas lojas. Era um mercado novo para ser explorado”, diz o rapaz.
    Depois da primeira leva de camisetas, feita num transfer tosco (técnica em que a estampa é impressa num papel e transferida ao tecido por meio do calor do ferro de passar roupas), Biz decidiu investir. Montou um site e produziu mais camisetas, dessa vez em silk screen. Hoje, ele vende em média 150 camisetas por mês, por R$ 35 cada, com cortes básicos e estampas de bandas megaobscuras como Architecture in Helsinki e Sigur Rós.
    Com modelagens mais arrojadas, decotes, babados, e até vestidos, a Mono, de Maria Biavati e Patrick Magalhães, da banda de rock independente Walverdes, também tem apelo pop. A loira incendiária Debbie Harry, do Blondie, e a série cinematográfica de terror cult “A Noite dos Mortos Vivos” são alguns dos temas das estampas. “No início, a idéia era fazer roupas de coisas de que nós gostamos. Como a marca cresceu, hoje tem muita estampa que é sugerida pelos clientes”, conta Maria, 23, que vende cerca de 180 peças por mês, a preços que variam de R$ 22 a R$ 50.
    Ela conta que o “sonho da loja própria” existe, mas ainda está longe de ser concretizado, pois exigiria uma reestruturação total da marca, que hoje só consegue atender à demanda dos pedidos via site. “A internet é um mercado legal, dá para distribuir para o país inteiro e o correio é superconfiável”, diz.
    Para comprar uma camiseta pelo site de qualquer dessas marcas, o procedimento é o simples: você escolhe o modelo e o tamanho, faz um depósito bancário (cartão de crédito ainda não rola) e espera a entrega, via correio. Todo o processo pode demorar até uma semana.
    Para Jorge Queiroz, 22, da Obra, outra vantagem da web é o apelo visual. “É um jeito não muito caro de transmitir a idéia da marca. Pelo design do site, dá para passar emoção, o conceito”, diz o designer. A marca existe desde 2005 e tem uma proposta “urbana, sem ser underground”, na definição de Jorge. A coleção atual tem como tema a boemia do centro de SP e estampas que homenageiam sambas clássicos.
    Já o Soma Visual faz camisetas assinadas por jovens artistas, em edições de no máximo 100 peças. “Vejo a camiseta como um veículo para mostrar o trabalho desses artistas”, diz o fundador Tiago Moraes, 29.
    Divulgar uma loja virtual sem nenhum plano (nem verba) de marketing pode parecer difícil, mas o boca-a-boca tem sido eficiente. O Orkut também ajuda. Mono, Alguns Tormentos, Reverbcity e Obra já contam com comunidades no site. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm1408200606.htm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: