Valentino aposenta as tesouras

11 set

Ou o Deus Mercado não perdoa

valentino1.jpgO último desfile com as modelos sóbrias em vermelho já tinha cara de despedida, ainda mais porque já se falava da aposentadoria de Valentino há algumas temporadas. Ele era um raro remanescente da geração de ouro da alta costura que ainda estava à frente da criação da marca que leva seu nome, mas pendurou as tesouras aos 75 anos na semana passada. Em comunicado, declarou que este é “o momento perfeito para dar adeus ao mundo da moda”. Pois é, o estilista jogou até os 45 do segundo tempo, mas saiu de campo antes de ser defenestrado pelo grupo inglês Permira, que controla sua etiqueta. Já fazia algum tempo que se falava no interesse de substituir o mestre por alguém mais jovem e de viés mais comercial, que pudesse abrir os caminhos em novos mercados.

Sinal dos novos tempos, em que as grandes, as donas do mundo, estão concentradas em meia dúzia de conglomerados financeiros. A líder absoluta continua sendo a LVHM, que reúne, além da própria Louis Vuitton, marcas como Dior, Givenchy, Emilio Pucci, Donna Karan, Fendi e Kenzo (isso sem falar em outras praias, como Moët&Chandon e Don Pérignon). Ali coladinha vem a PPR, que tem como braço no segmento de luxo o Gucci Group, com Balenciaga, Yves Saint Laurent, Alexander McQueen e Stella McCartney. Mais “humilde”, o grupo Riechmont tem Chloé, Cartier e Van Cleef & Arpels. Aliás foi Bernard Arnault, da LVMH, quem mandou mais cedo para casa Hubert de Givenchy, criador do clássico pretinho básico imortalizado por Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”.

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Mercado, mercado, mercado. Ele é quem manda, inevitável. Como manter uma marca de luxo hoje em dia? Quando Dior, seu sucessor Saint Laurent e o próprio Valentino fizeram fama e fortuna qualquer esposa de médico ou advogado bem sucedido era consumidora de alta costura. Se elas já foram 200 mil no mundo, hoje não chegam a 200. Como sustentar esse negócio, então? Reunindo marcas em crise financeira, dando-lhes novo gás comercial e vendendo perfumes, bolsas, óculos e acessórios. Ora, não posso ter um Dior by Galliano haute-couture de dezenas de milhares de dólares no armário, mas posso me borrifar de J’Adore por 50 dólares, certo? E assim marcas como Louis Vuitton fazem a festa da classe média, sobretudo em mercados emergentes como o Brasil.

Em agosto, o consórcio Valentino Fashion Group divulgou seu balanço do primeiro semestre de 2007: um volume de negócios de 1,027 bilhão de euros, com lucro líquido de 71,7 milhões de euros, um resultado 18,1% maior do que no mesmo período do ano passado. Great! Mas o endividamento do grupo ainda era de 453,5 milhões de euros, 46,2 milhões de euros a mais que doze meses antes… Pois é, nessa hora não há gênio criativo que resista e Valentino sabe disso. Comemorou seus 45 anos de carreira com três dias de festa em Roma, promete mais duas coleções (uma de prêt-à-porter e outra da alta costura) até janeiro, quando passará as agulhas para a jovem Alessandra Fachinetti, oriunda da Gucci, em mais uma dança das cadeiras entre os conglomerados, que deve mostrar seus primeiros resultados em março. Será o adeus dos vestidos vermelhos (marca registrada de Valentino)?

valentino2.jpgO grupo Permira se tornou acionista majoritário do Valentino Fashion Group em julho deste ano. Foi a terceira mudança de controle em menos de dez anos, após passar pela holding HdP e pela família Marzotto, um dos mais antigos grupos italianos do setor têxtil e de moda. Talvez por conta de seu estilo sempre elegante, mas deslocadamente conservador. Embora ainda marque presença em tapetes vermelhos – é uma das opções recorrentes de Julia Roberts (lembra que ela foi uma das primeiras a resgatar o vintage no Oscar 2001, com um modelito Valentino?) e Cate Blanchett – seu estilo vai de encontro à essa “popularização do luxo”. Sua fama veio ao vestir atrizes como Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor ou sua cliente mais famosa, Jacqueline Kennedy, que encomendou a Valentino seu vestido de noiva para se tornar Onassis. E para o estilista estes ainda são os modelos a serem seguidos. Jovens e despojadas atrizes como Cameron Diaz são comparadas a mendigas em suas calças de agasalhos. Melhor nem perguntar o que ele pensa de Paris Hilton então… Enfim, seu conceito de luxo parece não ter mais espaço nos dias de hoje.

Mas nem tudo são mágoas. Uma boa notícia para fãs de Valentino e fashionistas em geral é o lançamento de “Una Grande Storia Italiana – Valentino Garavani”, um coffee table book que faz uma homenagem ao estilista. O livro traz imagens de desfiles e looks, reportagens de revistas e jornais e ainda textos de experts, desde a “diaba” Anna Wintour até Suzi Menkes (ave Suzi!). Só que, para fazer jus à carreira de Valentino, o livro não é para todos. São apenas 2.000 cópias, edição limitada e concorridíssima. Os livros são numerados, guardados em caixas luxuosas, ao preço de US$ 900. A editora é a famosa Taschen – minha perdição em livros de arte, moda e fotografia!

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Aceito!

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