Esse post era pra ter entrado ontem, pra gente começar melhor esse dia chato que é uma segunda-feira. Enfim, toda semana tentarei escrever sobre alguém ou algum projeto que lança um olhar diferente sobre questões já cristalizadas ou que simplesmente faz seu trabalho com um cuidado especial. Pra inaugurar o “Bora prestar atenção?”, conversei com Douglas Carlos, estudante de Design de Moda em Pernambuco responsável pelo blog O Que O Povão Usa.
“A idéia da minissaia não é minha, nem de Courrèges”, enfatizou Mary Quant, sobre a peça que aparecia nas coleções de ambos em meados dos anos 60. “Foi a rua que a inventou”, completou. A força desse pequeno pedaço de pano que sobrevive até hoje estava justamente no fato de que não era normativa e nem estava dentro dos padrões do bom gosto da época. Basta lembrar que Chanel, até hoje referência inequívoca de elegância, não escondia que achava “horrorosa” a visão dos joelhos.
A moda de rua, a priori, não segue regras. Não é o que vemos nos sites e blogs que se propõem a mostrar o estilo das ruas brasileiras. Fala-se de democracia da moda, mas uma democracia de limites estabelecidos. Dê uma olhada pela internet e verá que a rua de Londres, Paris e Estocolmo está melhor representada do que a nossa. Quando se abre espaço para a moda de rua dita brasileira, é um Brasil que se resume a São Paulo, Rio, de vez em quando Minas ou Porto Alegre. A rua é a Oscar Freire, a Augusta ou outra do Jardins por onde desfilam jornalistas, publicitários, DJs, estilistas… Uma parcela bem ínfima de Brasil, concorda?
Cansado de blogs de moda de rua que nunca mostram o que realmente se vê nas ruas, Douglas Carlos, estudante do quarto período de Design de Moda no Senac-PE, resolveu fotografar o que ele vê todo dia no ônibus, no metrô, na feira. E os resultados do O Que O Povão Usa são surpreendentes. Não é que as tais tendências aparecem por lá, de um jeito ou de outro!? E sem nenhum tipo de produção prévia (alô, Sartorialist!).
Não resisti e fiz um rápido ping-pong com Douglas:
Primeira Fila – Como você vê esse vestir popular? Há um senso estético?
Douglas Carlos – Eu percebo que, apesar das condições, o povão nunca quer parecer povão. Velhinhos e velhinhas usam muita alfaiataria (apesar da qualidade baixa das modelagens e dos tecidos). Os mais jovens gostam de usar camisa polo, que é super fácil de combinar e acaba deixando o visual mais bonito.
PF – Há algo que te chame mais atenção?
DC – Também me chamam atenção as evangélicas, que são privadas pelas igrejas de usar, por exemplo, uma calça. Mas elas conseguem usar de forma bastante diversificada uma simples saia: várias formas, estampas…
DC -As tendências só chegam no povão por último, e nunca da mesma forma que as pessoas que têm informação de moda. Por exemplo, só depois de muito tempo que o povão realmente usou a calça sarouel. Há casos e casos, mas acredito que a maioria dessas pessoas só vestiram essa peça porque era uma novidade que estava em todas as lojas. Então eles viram e pensaram: Isso está na moda! Mas não sabem qual a origem da sarouel, quem foi o responsável por essa peça virar moda… Mais ou menos isso.
DC – Moda de rua é aquilo que as pessoas usam, seja tendência ou não.
DC -Pelo que vejo, as revistas tentam de toda forma com que as pessoas usem as tendências que vem lá de fora. E se esquecem que o clima daqui do Brasil é diferente, que as necessidades do brasileiro são outras. Olhar menos para o hemisfério norte (impossível deixar de olhar) e pensar mais no hemisfério sul faria com que a moda fosse mais democrática e poderia ser um caminho pra criar uma moda realmente brasileira. Acho que isso também serve para as grifes de moda.





Adorei, Douglas tem uma ótima visão sobre moda.
Adorei a matéria. Muito obrigado!
Fantástico! Deu vontade de sair clicando também pra ver no que dá!
Finalmente um blog que realmente se dedica à moda de rua, e não à moda das passarelas que termina chegando às ruas. Douglas Carlos inaugurou um novo conceito com sua iniciativa inovadora.
Ótima a idéia do Douglas. É muito bom saber que novos estilistas (como ele) já estão com uma ótima visão da moda, principalmente da moda que está na frente de seus próprios olhos.
achei realmente fino.
Curti, Mônica! Beijo, gatona.